duran duran [ou o pop não poupa ninguém]

4 maio

“Your name isn’t Rio, bur I don’t care for sand”

I Bet That You Look Good on the Dancefloor – Arctic Monkeys

“I don’t want your prayer, save it for the morning after”

Teddy Picker – Arctic Monkeys

Enquanto do outro lado da cidade, alguns enfrentavam a ressaca pós feriado para ver Noel Gallagher, resolvi fazer uma coisa diferente…

O Duran Duran não é da minha época, definitivamente. Quando eu nasci, eles já estavam no quinto disco e já tinham no currículo sucessos como Rio, Girls on Film, Planet Earth, Hungry Like The Wolf, Notorious, Save a Prayer, New Moon on Monday, já tinham feito música de abertura para o James Bond e por aí vai…

Lá em casa, nas caixas de fotos antigas, sempre topava com um cartão postal que minha mãe enviou de Paris para a minha irmã mais velha, nos idos de 1986. Na frente, nada de Torre Eiffel, Arco do Triunfo ou o Louvre. A foto é a capa de Seven and the Ragged Tiger, o terceiro disco do Duran Duran, de 1983. Nesse então eu tinha apenas 9 meses de idade e os caras já eram cartão postal!

Em 1988, o Duran Duran veio pela primeira vez ao Brasil. Sempre ouvi uma história que meus irmãos foram visitar meus pais e eu, que neste então estávamos morando no Rio de Janeiro, e acabamos indo almoçar no mesmo restaurante que a banda. Resultado, meu irmão, com uns 10 anos me pegou no colo e foi pedir um autógrafo dos caras, tamanha a vergonha da minha irmã de falar com seus ídolos, e deu certo.

Rodeada por essas lembranças, acabei me tornando fã de Duran Duran lá pelos idos de 2004, inspirada pelo lançamento de Astronaut, que tem a ótima (Reach Up For The) Sunrise, a partir daí me tornei fã mesmo. Explorando a discografia concluí, Duran Duran é pop em estado puro e da melhor qualidade, uma boa saída para minha fase pós-grunge e pós-nine inch nails e outras coisas obscuras. E por essas e outras, resolvi me aventurar no longínquo Credicard Hall para assistir os caras na última quarta-feira. E valeu a pena!

Com meia hora de atraso, Simon LeBon subiu ao palco de calça branca, terno bordô e camisa preta, abrindo o show com Before the Rain, música que fecha o [ótimo] último álbum, All You Need Is Now. Depois disso, veio uma fileira de sucessos, como Planet Earth, A View to a Kill, All You Need Is Now, The Reflex e Come Undone.

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Simon não estava nos seus melhores dias, vira e mexe uma tosse insistia em voltar (o que me trouxe lembranças do ótimo show do Ian McCulloch), mas ainda assim, sua voz é impressionante e está em plena forma. Um momento muito fofo aconteceu quando Fernanda Takai subiu ao palco para cantar Ordinary World, e ela segurou muito bem a responsabilidade!

Olhando em volta, via-se um público composto por muuuitas mulheres (enlouquecidas) e alguns maridos (muitos deles ligados no fone de ouvido, para saber quanto estava o jogo do Corinthians). Também compunham a plateia alguns jovens “perdidos” como eu, e foi legal ver que lá na frente (na famigerada pista vip), uma galera jovem fazia a festa com balões, pulserinhas de neon e papéis onde se lia No, No, No, No, que foram levantados quando cantaram Notorious (me lembrou os Na, Na, Na, Na no show do Kaiser Chiefs, no Planeta Terra).

Em algum momento, algum deles, acho que o próprio Simon, disse que o Brasil era ótimo e divertido e perguntou onde estavam todos nos anos 1980, a década do Duran Duran. E pensar que eu mal era um projeto de gente. Aliás, eu e Alex Turner, que faz referências claras ao Duran Duran em duas ótimas músicas do Arctic Monkeys.

Duas horas depois, depois do bis com direito a Girls on Film e Rio e Simon só de camisa, me senti de alma lavada. Claro que o Duran Duran não tem aquele pique de 30 anos atrás, ainda que o Simon dance, pule e cante lindamente, quem teve o prazer de vê-los nos anos 1980, viu a história acontecer. Ainda que eu não tenha visto A história acontecer, este é sem dúvida um show que marcou a minha história.

E pra terminar, um dos meus vídeos favoritos de todos os tempos no YouTube. A noite em que uma certa Diana, com apenas 22 anos, conheceu seus ídolos.

Diana, eu, Alex e tanta gente por aí…é, o pop não poupa mesmo ninguém…

Crédito da Imagem: Orlando Oliveira/AgNews

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roger waters’ the wall [ou um show que cita kafka, não pode ser ruim]

6 abr

“Someone must have slandered Josef K, for one morning, without having done anything wrong, he was arrested.”

Franz Kafka, The Trial

The Wall não é meu álbum preferido do Floyd. Coloco no topo Piper at the Gates of Dawn, Dark Side of the Moon e Wish You Were Here, mas acho que nenhum deles daria um show tão bom quanto no quesito espetáculo. Porque o The Wall do Roger Waters é isto, um espetáculo.

Há algumas semanas, li um texto na Rolling Stone Argentina cujo título perguntava: ¿Quién escucha hoy The Wall entero? O autor coloca a pergunta e argumenta que The Wall é um disco que sofreu com a passagem do tempo e que Roger Waters se converteu numa banda cover dele mesmo. Realmente, em alguns momentos fica a impressão que colocaram o disco pra rodar e a banda só está lá para figuração. Ela fica mais forte em momentos como Comfortably Numb, em algum momento, parece mesmo que o David Gilmour vai aparecer no alto do muro, mas não. De qualquer maneira, não acho que as músicas pareçam tão datadas assim, especialmente porque Waters soube transformar músicas que falavam sobre ele em músicas que falam sobre nós.

The Wall, como boa parte dos discos do Floyd, não funciona bem no shuffle do iPod. Hey You, Comfortably Numb e Mother, por exemplo, são músicas incríveis por si só, mas as partes de Another Brick in The Wall ficam muito melhores quando já ouvimos a história que as precede. Li alguma crítica do show dizendo que a apresentação é engessada, não permitindo muito espaço para improviso e que é previsível. A crítica ainda dizia que seria incrível se o show terminasse com Another Brick in the Wall. Talvez seria incrível numa turnê de Greatest Hits do Floyd, mas The Wall tem que terminar com o muro caindo, tem que terminar com The Trial e com todos Outside the Wall.

Nos quesitos técnicos arrisco dizer que foi o melhor show que já vi. A qualidade do telão chega a ser estúpida de tão perfeita. Cada foto em seu tijolinho e as imagens do palco refletidas no muro batem muita tela de cinema por aí. E o som, ah, o som… Para se ter uma ideia, gravei algumas músicas com o celular e fiquei preocupada, já que o cidadão que estava ao meu lado cantava [e errava as letras] a plenos pulmões. Para minha surpresa, o único que se ouve cantar, é Roger. O outro lado da moeda, é que não há aqueles momentos em que só se ouve a plateia [que cantou muito], que são sempre emocionantes.

E The Wall foi mais ou menos assim, com momentos grandiosos, outros de lágrimas e muitos de reflexão. Vamos sair e fazer a revolução? Não. Vamos sair derrubando os muros e as grades? Dificilmente. Mas saímos com a sensação de missão cumprida, de ter ouvido uma obra incrível e de ter visto, ainda que como um cover de si mesmo, um dos últimos grandes homens do rock.